segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Os domingos são intermináveis. Procuro fazer coisas para me distrair, faço compras, leio os jornais, vejo emails. Mas é como se houvesse um longo eco oculto em mim, um buraco aberto, aumentando a cada instante.
Leio, escrevo, falo com amigos e com tuas primas. Não ligo para "ela", embora a vontade seja grande. Preferi respeitar o pedido. Quem sabe voltemos a falar a mesma linguagem.
Quando chega a noite, é aquele momento em que o eco silencia aos poucos, e o buraco desaparece. Depois virá segunda-feira. Dia 2 completo um ano em São Paulo. Refaço as contas: um ano e oito meses que deixei vocês.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Um dia, na tua desenvoltura, mandaste-me um email perguntando direta e sem entremeios:"Então, já tens namorada?". Li e fiquei pasmo, rindo de forma sutil: "Essa minha filha... vai direto ao assunto!". Como hei de falar a ti sobre "ela"? Certamente irei encontrar uma maneira, não sei é como hás de reagir. Será que filha tem ciúmes do pai?
De fato, surpreendes-me a cada notícia. Agora te uniste aos amigos e irão organizar um barzinho... tudo através da JCP. Quem diria, minha filha. Espero apenas que não seja um entusiasmo momentâneo, e mesmo que seja, já será uma experiência para ti. Vou escrever sobre comunismo para ti, sobre o lado positivo e o lado negativo, porque das ideologias do séc. XX, essa é como o deus Janus. Quase tudo na vida tem esses dois lados.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Nunca falamos sobre minha decisão de regressar, talvez, porque achei que seria difícil explicar-te. Agora, cresceste, estás mais madura, compreendes mais as coisas.
Todos nós atravessamos vários períodos da vida. Vivi mais de 16 anos fora do país onde nasci, fiz muita coisa. Mas um diapasão interior tocou , anunciando que era hora de voltar. Não foi possível trazer vocês, uma decisão que não passou por mim e à revelia do que imaginara.
Esta parte, conheces bem a história.
Naquele dia, entrei no avião como se caminhasse para um sacrifício, meio sonâmbulo, meio alheado do tempo real. Sabia que estava deixando minha vida para trás, tudo o que construí e criei, e com essa decisão perdia vocês. Não iria te ver crescer descobrindo a vida, despertando para o mundo.
Enquanto as horas passavam e a distância aumentava - angustiosamente recriadas na tela à minha frente - rememorei cada instante de nossas vidas: teu nascimento, teus aniversários, viagens, almoços, doenças, risos, natais. Trouxe comigo fotos tuas de várias fases. Revejo-as muitas vezes, recordo cada pormenor que, provavelmente, nem vocês se lembrem.
Foi no avião que lembrei do poema do Robert Frost, um poeta norte-americano. Acompanhava-me há muitos anos. Li-o em diversas épocas. No fundo, dizia algo que acabaria por acontecer. Acontecia naquele exato instante.
Fica aqui numa tradução simples. Sei que hás de ler, saberás então como todos têm que tomar decisões, optar pelo certo ou pelo errado. Importa decidir, sempre. E seguir uma estrada obscura, experimentar o desconhecido, encarar as possibilidades.
Hás de te encontrar nessa situação algum dia, irás titubear, chorar com dúvidas, ainda assim terás que decidir. Quando esse momento chegar, lembra destas palavras, recorda o poema. Mas jamais te arrependas daquilo que decidires. Isso irá te fazer uma jovem madura, uma mulher forte, decidida. Uma pessoa genuína.

A ESTRADA QUE NÃO SEGUI

Duas estradas bifurcavam num bosque pálido
triste por não seguir ambas
sendo apenas um só vijante, parei longo tempo
observando uma delas, até onde meu olhar alcançava
pois por trás das moitas fazia uma curva.

Segui então a outra que pareceu bela,
oferecendo, talvez, uma vantagem
por estar repleta de grama querendo ser pisada;
embora neste ponto o estado fosse o mesmo
e uma, como a outra, já tivesse sido pisada.

Naquela manhã as duas tinham
folhas ainda não amassadas pelos passos.
Deixei a primeira para outro dia.
sabendo como uma estrada leva a outra,
duvidei poder um dia voltar!

Repetirei essa história suspirando,
por muito tempo, em algum outro lugar:
duas estradas bifurcavam num bosque,
segui a menos frequentada.
E foi essa a razão que fez toda diferença.

Robert Frost

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Quando mandaste-me o email, a semana passada, informando-me que fazias parte da Juventude Comunista portuguesa, fiquei sorrindo, um pouco surpreso, e ao mesmo tempo com certo contentamento. Afinal, poderias ter anunciado qualquer coisa, gênero:"Pai, vou virar punk", ou "Pai, sou lésbica". Certamente que teria que entender qualquer decisão tua. Jamais imaginei é que me dirias "faço parte da juventude comunista portuguesa". Esse email fez-me pensar sobre muita coisa. Apesar de não ser politizado, embora minha propensão tenha sido para a esquerda, nunca me viste discutindo política, o mais comum mesmo foi me ouvires falando sobre livros. É, aos poucos vais forjando tua independência, tuas idéias, teus valores, só poderei acompanhar e discutir tudo contigo, tentar te ajudar numa dúvida, velar por ti quando tiveres que enfrentar desafios ou nos momentos de insegurança e tristeza estar do teu lado, mesmo que com toda essa distância.
Mandei-te fotos de São Paulo, e como foi engraçado quando me disseste que tinhas mostrado à tua irmã, mas que "ela não entendia nada, só via fotos de prédios". Um dia escreverei sobre São Paulo para ti, não só Sampa, mas também sobre o Rio, sobre Belém, sobre o Brasil. Metade de ti é brasileira, e um dia hás de entender isso.
Quando chega sexta-feira, sinto como se houvesse um buraco enorme à minha frente. Sei que posso encontrar amigos, conversar, falar sobre livros. Contudo, poucos sabem que existe uma melancolia tácita se gerando a cada momento dentro de mim. A falta é um sentimento terrível, corrói por dentro, torna as coisas mais estéreis. A imagem de vocês permanece sobre mim, numa presença invisível que só eu posso distinguir.