terça-feira, 23 de outubro de 2007

Nunca falamos sobre minha decisão de regressar, talvez, porque achei que seria difícil explicar-te. Agora, cresceste, estás mais madura, compreendes mais as coisas.
Todos nós atravessamos vários períodos da vida. Vivi mais de 16 anos fora do país onde nasci, fiz muita coisa. Mas um diapasão interior tocou , anunciando que era hora de voltar. Não foi possível trazer vocês, uma decisão que não passou por mim e à revelia do que imaginara.
Esta parte, conheces bem a história.
Naquele dia, entrei no avião como se caminhasse para um sacrifício, meio sonâmbulo, meio alheado do tempo real. Sabia que estava deixando minha vida para trás, tudo o que construí e criei, e com essa decisão perdia vocês. Não iria te ver crescer descobrindo a vida, despertando para o mundo.
Enquanto as horas passavam e a distância aumentava - angustiosamente recriadas na tela à minha frente - rememorei cada instante de nossas vidas: teu nascimento, teus aniversários, viagens, almoços, doenças, risos, natais. Trouxe comigo fotos tuas de várias fases. Revejo-as muitas vezes, recordo cada pormenor que, provavelmente, nem vocês se lembrem.
Foi no avião que lembrei do poema do Robert Frost, um poeta norte-americano. Acompanhava-me há muitos anos. Li-o em diversas épocas. No fundo, dizia algo que acabaria por acontecer. Acontecia naquele exato instante.
Fica aqui numa tradução simples. Sei que hás de ler, saberás então como todos têm que tomar decisões, optar pelo certo ou pelo errado. Importa decidir, sempre. E seguir uma estrada obscura, experimentar o desconhecido, encarar as possibilidades.
Hás de te encontrar nessa situação algum dia, irás titubear, chorar com dúvidas, ainda assim terás que decidir. Quando esse momento chegar, lembra destas palavras, recorda o poema. Mas jamais te arrependas daquilo que decidires. Isso irá te fazer uma jovem madura, uma mulher forte, decidida. Uma pessoa genuína.

A ESTRADA QUE NÃO SEGUI

Duas estradas bifurcavam num bosque pálido
triste por não seguir ambas
sendo apenas um só vijante, parei longo tempo
observando uma delas, até onde meu olhar alcançava
pois por trás das moitas fazia uma curva.

Segui então a outra que pareceu bela,
oferecendo, talvez, uma vantagem
por estar repleta de grama querendo ser pisada;
embora neste ponto o estado fosse o mesmo
e uma, como a outra, já tivesse sido pisada.

Naquela manhã as duas tinham
folhas ainda não amassadas pelos passos.
Deixei a primeira para outro dia.
sabendo como uma estrada leva a outra,
duvidei poder um dia voltar!

Repetirei essa história suspirando,
por muito tempo, em algum outro lugar:
duas estradas bifurcavam num bosque,
segui a menos frequentada.
E foi essa a razão que fez toda diferença.

Robert Frost

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